segunda-feira, 9 de junho de 2025

MINHA LEITURA: O CÉREBRO DA CRIANÇA.


MINHA LEITURA: O CÉREBRO DA CRIANÇA[1]

Além de sobreviver, como ajudar uma criança a prosperar? Essa é a pergunta que o professor clínico de psiquiatria, Daniel Siegel e a psicoterapeuta Tina Bryson buscam responder neste guia[2] de criação de filhos até doze anos, da perspectiva da neurociência.

               Como pedagogo, na última década conheci diversas crianças confusas sobre seus sentimentos e pensamentos e também muitos pais e professores[3] perdidos sobre como lidar com comportamentos inadequados das crianças. Na sala de aula, o professor possui uma demanda acadêmica urgente de ensinar o conteúdo de um currículo inchado, mas precisa gastar tempo mediando conflitos não só entre crianças, mas também acolher conflitos internos do indivíduo. Gostaria de ter lido antes esta obra, pois as estratégias apresentadas por Siegel e Bryson são dicas de ouro para nós educadores não só ajudarmos as crianças a sobreviverem as crises do desenvolvimento humano, mas usá-las como oportunidades para prosperar e amadurecer diante dos desafios.

               Como ocorre ao longo de todo o livro, os autores iniciam explicando o funcionamento do cérebro de uma forma bem didática e prática.[4] Diferente de outras obras científicas aplicadas a educação[5], “O cérebro da criança” possui uma leitura compreensível e atrativa para pais e educadores. Os autores defendem que para ajudar uma criança a prosperar, precisamos ajudá-la a “integrar”[6] seu cérebro. Siegel e Bryson explicam que nosso cérebro é dividido em partes, o hemisfério direito é dominado pela emoção, instinto e impulsividade, já o esquerdo é mais lógico, racional e organizado. Dentro do seu estágio do desenvolvimento, as crianças tendem a utilizar mais o lado emocional, pois ainda não dominaram a capacidade de se expressar de forma lógica e organizada com as palavras que transcrevem seus sentimentos. Segundo os autores, utilizar apenas um dos hemisférios pode levar ao caos (domínio direito) ou à rigidez (domínio esquerdo), portanto a estratégia dos pais e educadores é: “...ajudarmos nossos filhos a conectarem esquerda e direita, podemos lhes dar uma chance melhor de evitar as margens do caos e da rigidez.” Como fazem didaticamente ao longo de todo o livro, os autores usam a analogia de um rio para falar sobre a saúde mental. Nossos pensamentos são como um rio, navegamos ou nadamos nele. Os problemas de saúde mental ocorrem quando nos aproximamos muito de um dos lados e então nos ferimos nas pedras que ficam nas margens do rio. É como se tentássemos nadar apenas com o braço direito, ou remássemos apenas com o remo esquerdo, bateríamos na margem ou ficaríamos rodando sem sair do lugar.

A partir do entendimento de como o cérebro funciona e da necessidade de integrá-lo, ou seja, usar os dois hemisférios, logo vem a pergunta: “Ok, como eu faço isso?”

Siegel e Bryson, respondem com doze estratégias práticas sobre como ajudar as crianças a usarem o cérebro por inteiro e evitar os extremos do caos e rigidez. Abaixo, comento sobre a primeira das estratégias que em minha experiência pedagógica já vi funcionar diversas vezes e convido o leitor a aplicar em sua pedagogia.

·       Conectar para redirecionar. Talvez você, assim como eu, já tentou ensinar uma criança quando ela está nervosa. A criança pegou o brinquedo da mão do colega sem pedir, a menina não ganhou o presente que queria, etc. Por experiência própria já percebi que naquele momento em que você tem uma criança furiosa na sua frente, não adianta muito tentar dar conselhos e sermões. Os autores explicam que isso acontece porque naquele momento o cérebro emocional está dominando todo o pensamento dela, portanto apelar para a lógica é ineficaz, porque o lado esquerdo racional está bloqueado. O que fazer, então? Conectar com o direito para redirecionar com o esquerdo. Na hora da crise, uma estratégia eficaz é se conectar com os sentimentos das crianças, dar o tempo necessário para todos se acalmarem e então depois que você a acolheu e se conectou com um abraço e palavras de empatia, aí sim podemos redirecioná-la para integrar seu cérebro, convidando a razão para a conversa. Nossa tendência de querer resolver tudo rápido, pode levar a agressão (gritar) ou a omissão (ignorar), em vez disso, o convite é: primeiro abrace e ouça, depois questione e explique. Através de perguntas, podemos levar a criança a perceber que sua reação foi inadequada e então refletir sobre o próprio erro, como repará-lo e como lidar com ele melhor no futuro.[7]

As demais estratégias do livro como “nomear para disciplinar” e “envolver em vez de enfurecer”, aprofundam e complementam a estratégia inicial a fim de integrar o cérebro da criança a fim de que ela, entenda o que está sentindo, participe da solução e equilibre o racional e o emocional e prospere como um indivíduo saudável.  

Para aqueles que procuram um guia de criação de filhos prático, equilibrado, não-ideológico e embasado cientificamente, “O Cérebro da Criança” é uma obra prima na área. Um livro importante para um momento conturbado da nossa sociedade, desafiador para pais e educadores e confuso para nossas crianças. Concluo esta reflexão pedagógica com uma das frases finais da obra que acredito que te darão uma vontade enorme de ler todo o livro:

“Toda essa conversa sobre o poder de moldar a mente de seus filhos e influenciar o futuro pode parecer intimidadora no começo,... Se você realmente entendeu o conceito de O cérebro da criança, sabe que é possível se libertar dos medos de não estar fazendo um trabalho bom o suficiente com seus filhos. Não é sua responsabilidade evitar todos os erros nem retirar todos os obstáculos da frente deles. Ao contrário, sua função é estar sempre presente e conectar-se com eles durante os altos e baixos da jornada da vida... mesmo os momentos mais difíceis que enfrentamos com nossos filhos e até os erros que cometemos como pais são oportunidades para ajudá-los a crescer, aprender e se desenvolver como seres felizes, saudáveis e completamente eles mesmos. Em vez de ignorar grandes emoções ou desviar a tenção de seus filhos das dificuldades, você pode alimentar o cérebro deles auxiliando-os a enfrentar esses desafios...”[8]



[1] SIEGEL, Daniel J. BRYSON, Tyna Payne. O cérebro da criança: 12 estratégias revolucionárias para nutrir a mente em desenvolvimento do seu filho e ajudar a família a prosperar. São Paulo: nVersos, 2015.

[2] Uma das coisas que gostei deste livro é que embora seja um guia, ele não se coloca como a verdade universal, nem como infalível. Os autores comentam que existem exceções e em alguns momentos o fracasso é real. O ser humano é complexo demais para tudo funcionar para todos. O tom do livro para os pais é sempre de empatia e incentivo, sem pressão e culpa, nem permissividade.

[3] Inclusive eu...

[4] Os autores usam analogias, histórias reais e até charges para comunicarem o conteúdo denso de neurociência.

[5] Já tentou ler “A Psicologia da Criança” de Jean Piaget e Barbel Inhelder? Boa sorte para entender a obra de linguagem confusa, pedante e desorganizada. O que não significa que o livro não seja bom.

[6] Por isso o título original: “The Whole-brain child” ou “Cérebro da criança por inteiro”.

[7] Outra coisa que gostei deste livro é o equilíbrio dos autores ao lidar com os conflitos da infância. Enquanto alguns defendem uma “educação positiva” que pode levar à permissividade e outros uma “educação rígida” que pode gerar traumas, este livro defende o equilíbrio: há momento de proibir e dizer não, mas isso dentro de uma cultura de acolhimento e autoridade saudáveis.    

[8] SIEGEL & BRYSON, p.210.

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