sexta-feira, 23 de maio de 2025

A PEDAGOGIA DE “ADOLESCÊNCIA”

“Ele só tem treze anos...”. É a frase repetida diversas vezes por Eddie Miller, pai do adolescente Jamie, acusado e condenado pelo assassinato de uma colega da escola. A história retratada pela minissérie “Adolescência”, é inspirada em fatos reais de crimes hediondos que ocorrem cada vez mais entre os jovens, não só na Inglaterra, mas no mundo. A série da Netflix provoca o debate sobre muitos assuntos: educação parental, uso das redes sociais, bullying, masculinidade, etc. Contudo, o ponto que desejo destacar neste texto é a influência do ambiente e dos relacionamentos escolares, retratada no segundo episódio.

Cultura de violência normalizada.

Ao longo de todo o segundo episódio, observamos um cotidiano violento, seja em palavras ou ações. Dois dias após a morte de uma aluna, diversos alunos se comportam como se nada tivesse acontecido, banalizando a morte de uma colega. O problema não era a falta de informação, pois até mesmo o policial fica chocado sobre como todos na escola sabem detalhes do caso, mas sim a falta de empatia e senso de gravidade sobre as consequências extremas que uma cultura de ódio pode causar. O episódio mostra o filho do policial sofrendo bullying (na frente do pai), a amiga da vítima descontando sua raiva em todos, professores ameaçando alunos no pátio, alunos ofendendo professores nos corredores e um aluno achando engraçado, na frente da polícia, que Jamie tenha assassinado uma menina. Precisamos redobrar a atenção para o fato de que uma parcela significativa das nossas escolas possui uma cultura de violência. Em algumas escolas, é normal xingar professores, agredir colegas e ser indiferente com a dor alheia. No Brasil, a violência escolar triplicou na última década e em 2023 mais de 13 mil atendimentos a vítimas em ambiente escolar foram registradas.[1] É provável que nosso espanto diante de casos como o de Jamie, se deva ao fato de que não conhecemos de perto a cultura de violência de algumas escolas. Um ambiente violento influencia e fomenta, aos poucos, crimes como esse. Seria simplista pensar que os crimes de violência escolar surgem do nada, pelo contrário são alimentados dia a dia numa cultura de violência normalizada. Muito se fala sobre violência doméstica e digital, mas precisamos nos atentar mais sobre o dia a dia das nossas escolas, pois é o ambiente em que muitos adolescentes passam a maior parte do dia.

Do ponto de vista pedagógico, o que pais e educadores devem saber e podem fazer para apoiar seus adolescentes nessa fase desafiadora da vida? A partir de algumas observações sobre o cotidiano e os diálogos do segundo episódio da série, apontamos três questões a se considerar sobre como tratar o problema da violência escolar:

1.       Cartazes na parede não são suficientes. Logo no início do episódio, os policiais encontram Jade, melhor amiga da vítima, que foi conduzida contra sua vontade para a conversa. Atrás de Jade, observamos dois cartazes que dizem: “Você é um arco íris de possibilidades” e “Mude sua mentalidade”. A escola buscava conscientizar os alunos sobre positividade através de mensagens visuais, contudo os diálogos de alguns educadores, ao longo da série, não retratam essa mesma positividade. O problema não é colar cartazes, pois isso é bom, a questão é: quando nós educadores não vivemos a mensagem que ensinamos, não podemos esperar mudança na vida de nossos alunos. No segundo cartaz mencionado, há uma série de frases contrastantes: “Isto é muito difícil.” x “Isto vai exigir tempo e esforço.”, “ Eu não posso melhorar.” x “Eu sempre posso melhorar, continuarei tentando.”, etc. O curioso é que a série deixa em aberto uma das frases que foi rasgada, ficando apenas seu lado positivo: “Erros me ajudam a melhorar.”[2] Campanhas, propagandas e cartazes ajudam a lembrar mensagens, mas o que realmente precisamos é que adultos educadores pratiquem o amor, empatia e respeito uns com os outros, a fim de sermos bons exemplos e influenciadores para crianças e adolescentes. Conforme o velho ditado diz: “palavras inspiram, mas exemplos arrastam.”

2.       “Parece que ninguém está aprendendo nada...” Esse foi o desabafo do policial após um passeio de 40 minutos pela escola. As causas para este diagnóstico são múltiplas. Uma delas é o uso inadequado do celular no ambiente escolar, que embora seja proibido, muitos alunos estão constantemente utilizando-o nas salas e corredores. Já tem sido questão pacificada entre pais e profissionais da educação que o uso inadequado e excessivo das telas prejudica a aprendizagem[3], pois a forma e a quantidade de tempo que os alunos usam o celular prejudica uma coisa que é fundamental para o aprendizado: atenção! A aprendizagem consciente e sistemática, especialmente a escolar, exige altos níveis de atenção.[4] Por outro lado, a série provoca os educadores sobre sua didática. Após o desabafo, o professor diz: “todos só estão assistindo vídeos”. O uso de vídeos educativos tem seu espaço, mas não podemos reduzir nossas aulas à exibição de vídeos[5]. Resumindo, os alunos precisam se conscientizar de que é seu dever prestar atenção e cultivar a habilidade de concentração nos estudos. Da mesma forma, nós educadores precisamos desenvolver excelência em nossa didática, pois se não atrairmos a atenção de nossos alunos, eles focarão seu aprendizado em outra pessoa, que pode não ser uma influência positiva.

3.       “Como você sobreviveu à escola? R: Uma professora...”  Esse foi o diálogo entre os policiais no final do episódio. A detetive revela que só aguentou os anos de sofrimento na escola, pois teve o privilégio de encontrar uma professora incrível. Mais cedo, ela reclama do clima e cheiro da escola, mostrando o trauma que carregava de sua experiência escolar. Ela complementa esse testemunho afirmando: “As crianças só precisam de algo que lhes dê autoconfiança...”. A detetive só conseguiu suportar sua vida escolar, pois uma educadora a acolheu e deu o suporte que ela precisava para se desenvolver. Crianças e adolescentes estão aprendendo a viver neste mundo e possuem muitas dúvidas e desafios. O que elas precisam[6] é: alguém ou algo que lhes dê o acolhimento e as respostas que precisam. Jamie aparentemente encontrou isso de uma forma negativa com seus amigos e nos perfis do movimento “Redpill”. É muito fácil criticarmos influenciadores digitais e terceirizarmos a culpa para eles (embora tenham sua responsabilidade)[7], mas a pergunta final que desejo deixar como provocação a todos nós é: “Onde estão os educadores incríveis?” Vamos deixar a cultura da violência ser mais forte do que a nossa influência amorosa?[8] Vamos continuar terceirizando a educação moral para influenciadores digitais? Vamos nos limitar a cartazes e vídeos?

Concluo com um conselho pedagógico da sabedoria hebraica antiga, especialmente para os pais educadores, sobre como educar a juventude:

“Guarde sempre no coração as palavras que hoje eu lhe dou. Repita-as com frequência a seus filhos. Converse a respeito delas quando estiver em casa e quando estiver caminhando, quando se deitar e quando se levantar. Dt 6:6,7

Dentre muitas lições, a pedagogia da série “Adolescência” nos mostra que precisamos investir tempo de qualidade e quantidade com os filhos. Dedique tempo e esforço, desde cedo, em cultivar um relacionamento de confiança com seu filho.  Converse, brinque, passeie com eles, o quanto puder, a fim de ensinar as palavras de amor, que ficarão inculcadas em suas mentes e servirão como resposta à violência que nos cerca. A série termina com um desabafo do pai dizendo: “Eu devia ter feito melhor”. Após esta leitura, pare e pense: o que você pode melhorar hoje no relacionamento com seus filhos ou alunos?



[2] Ainda não encontrei em minha pesquisa qual era a frase rasgada. Imagino que seja uma ideia negativa, como: “Eu sou um erro”, “Preciso ser perfeito”, etc. Conjecturo que a própria Jade possa ter rasgado a frase pela revolta da perda da amiga.

[4] O uso das telas por criança e adolescentes é um tema amplo e profundo que espero tratar num texto futuro. No momento, me limito a dizer que as telas são ferramentas, que podem ser bem ou mal usadas. Ainda estamos aprendendo e descobrindo o equilíbrio necessário desta tecnologia.

[5] Concordamos com Doug Lemov quando escreve: “Ensinar bem é o melhor jeito de mostrar que você se importa com seu aluno.” (Aula nota 10 – Ed. Penso, p.26) A relação de confiança e respeito, entre  professor e aluno, passa pela excelência da didática e postura exemplar do docente.

[6] ...e buscarão em algum lugar...

[7] Reforçando o que escrevi no início do texto, a série provoca diversas questões que contribuíram para o crime de Jamie: bullying, más influências nas redes sociais, educação mais presente dos pais, machismo, etc. Cada um destes fatores têm sua porcentagem no problema central da série, contudo não é meu objetivo, nem é possível, abordar tudo em um único texto. Este texto busca trazer um olhar da pedagogia sobre o segundo episódio e defende que uma das estratégias para amenizar o problema da violência entre os jovens é o cuidado intencional, vigilante e acolhedor de educadores, sendo bons exemplos para seus alunos e dando o suporte emocional que precisam.

[8] A pergunta pressupõe que, nós educadores, vivemos uma cultura de amor e acolhimento, pois do contrário a tendência é que os adolescentes reproduzam a violência que veem em nós.

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