“Ele só tem treze anos...”. É a frase
repetida diversas vezes por Eddie Miller, pai do adolescente Jamie, acusado e
condenado pelo assassinato de uma colega da escola. A história retratada pela minissérie
“Adolescência”, é inspirada em fatos reais de crimes hediondos que ocorrem cada
vez mais entre os jovens, não só na Inglaterra, mas no mundo. A série da
Netflix provoca o debate sobre muitos assuntos: educação parental, uso das
redes sociais, bullying, masculinidade, etc. Contudo, o ponto que desejo
destacar neste texto é a influência do ambiente e dos relacionamentos escolares,
retratada no segundo episódio.
Cultura
de violência normalizada.
Ao longo de
todo o segundo episódio, observamos um cotidiano violento, seja em palavras ou
ações. Dois dias após a morte de uma aluna, diversos alunos se comportam como se
nada tivesse acontecido, banalizando a morte de uma colega. O problema não era a
falta de informação, pois até mesmo o policial fica chocado sobre como todos na
escola sabem detalhes do caso, mas sim a falta de empatia e senso de gravidade
sobre as consequências extremas que uma cultura de ódio pode causar. O episódio
mostra o filho do policial sofrendo bullying (na frente do pai), a amiga da
vítima descontando sua raiva em todos, professores ameaçando alunos no pátio,
alunos ofendendo professores nos corredores e um aluno achando engraçado, na
frente da polícia, que Jamie tenha assassinado uma menina. Precisamos redobrar
a atenção para o fato de que uma parcela significativa das nossas escolas possui
uma cultura de violência. Em algumas escolas, é normal
xingar professores, agredir colegas e ser indiferente com a dor alheia. No
Brasil, a violência escolar triplicou na última década e em 2023 mais de 13 mil
atendimentos a vítimas em ambiente escolar foram registradas.[1]
É provável que nosso espanto diante de casos como o de Jamie, se deva ao fato
de que não conhecemos de perto a cultura de violência de algumas escolas. Um
ambiente violento influencia e fomenta, aos poucos, crimes como esse. Seria simplista
pensar que os crimes de violência escolar surgem do nada, pelo contrário são
alimentados dia a dia numa cultura de violência normalizada. Muito se fala sobre
violência doméstica e digital, mas precisamos nos atentar mais sobre o dia a dia
das nossas escolas, pois é o ambiente em que muitos adolescentes passam a maior
parte do dia.
Do ponto de
vista pedagógico, o que pais e educadores devem saber e podem fazer para
apoiar seus adolescentes nessa fase desafiadora da vida? A partir de
algumas observações sobre o cotidiano e os diálogos do segundo episódio da
série, apontamos três questões a se considerar sobre como tratar o problema da violência
escolar:
1. Cartazes
na parede não são suficientes. Logo no início do episódio, os policiais
encontram Jade, melhor amiga da vítima, que foi conduzida contra sua vontade
para a conversa. Atrás de Jade, observamos dois cartazes que dizem: “Você é um
arco íris de possibilidades” e “Mude sua mentalidade”. A escola buscava
conscientizar os alunos sobre positividade através de mensagens visuais,
contudo os diálogos de alguns educadores, ao longo da série, não retratam essa
mesma positividade. O problema não é colar cartazes, pois isso é bom, a questão
é: quando nós educadores não vivemos a mensagem que ensinamos, não podemos
esperar mudança na vida de nossos alunos. No segundo cartaz mencionado, há
uma série de frases contrastantes: “Isto é muito difícil.” x “Isto vai
exigir tempo e esforço.”, “ Eu não posso melhorar.” x “Eu sempre posso
melhorar, continuarei tentando.”, etc. O curioso é que a série deixa em
aberto uma das frases que foi rasgada, ficando apenas seu lado positivo: “Erros
me ajudam a melhorar.”[2]
Campanhas, propagandas e cartazes ajudam a lembrar mensagens, mas o que
realmente precisamos é que adultos educadores pratiquem o amor, empatia e
respeito uns com os outros, a fim de sermos bons exemplos e influenciadores
para crianças e adolescentes. Conforme o velho ditado diz: “palavras
inspiram, mas exemplos arrastam.”
2. “Parece
que ninguém está aprendendo nada...” Esse foi o desabafo do policial após
um passeio de 40 minutos pela escola. As causas para este diagnóstico são
múltiplas. Uma delas é o uso inadequado do celular no ambiente escolar, que embora
seja proibido, muitos alunos estão constantemente utilizando-o nas salas e
corredores. Já tem sido questão pacificada entre pais e profissionais da
educação que o uso inadequado e excessivo das telas prejudica a aprendizagem[3],
pois a forma e a quantidade de tempo que os alunos usam o celular prejudica uma
coisa que é fundamental para o aprendizado: atenção! A aprendizagem
consciente e sistemática, especialmente a escolar, exige altos níveis de
atenção.[4]
Por outro lado, a série provoca os educadores sobre sua didática. Após o
desabafo, o professor diz: “todos só estão assistindo vídeos”. O uso de
vídeos educativos tem seu espaço, mas não podemos reduzir nossas aulas à
exibição de vídeos[5]. Resumindo,
os alunos precisam se conscientizar de que é seu dever prestar atenção e
cultivar a habilidade de concentração nos estudos. Da mesma forma, nós
educadores precisamos desenvolver excelência em nossa didática, pois se não
atrairmos a atenção de nossos alunos, eles focarão seu aprendizado em outra
pessoa, que pode não ser uma influência positiva.
3. “Como
você sobreviveu à escola? R: Uma professora...” Esse foi o diálogo entre os policiais no final
do episódio. A detetive revela que só aguentou os anos de sofrimento na escola,
pois teve o privilégio de encontrar uma professora incrível. Mais cedo,
ela reclama do clima e cheiro da escola, mostrando o trauma que carregava de
sua experiência escolar. Ela complementa esse testemunho afirmando: “As
crianças só precisam de algo que lhes dê autoconfiança...”. A detetive
só conseguiu suportar sua vida escolar, pois uma educadora a acolheu e deu o
suporte que ela precisava para se desenvolver. Crianças e adolescentes estão
aprendendo a viver neste mundo e possuem muitas dúvidas e desafios. O que elas
precisam[6]
é: alguém ou algo que lhes dê o acolhimento e as respostas que precisam.
Jamie aparentemente encontrou isso de uma forma negativa com seus amigos e nos
perfis do movimento “Redpill”. É muito fácil criticarmos influenciadores
digitais e terceirizarmos a culpa para eles (embora tenham sua
responsabilidade)[7],
mas a pergunta final que desejo deixar como provocação a todos nós é: “Onde
estão os educadores incríveis?” Vamos deixar a cultura da violência ser
mais forte do que a nossa influência amorosa?[8]
Vamos continuar terceirizando a educação moral para influenciadores digitais? Vamos
nos limitar a cartazes e vídeos?
Concluo
com um conselho pedagógico da sabedoria hebraica antiga, especialmente para os
pais educadores, sobre como educar a juventude:
“Guarde
sempre no coração as palavras que hoje eu lhe dou. Repita-as com frequência a
seus filhos. Converse a respeito delas quando estiver em casa e quando estiver
caminhando, quando se deitar e quando se levantar. Dt 6:6,7
Dentre
muitas lições, a pedagogia da série “Adolescência” nos mostra que precisamos investir
tempo de qualidade e quantidade com os filhos. Dedique tempo e esforço,
desde cedo, em cultivar um relacionamento de confiança com seu filho. Converse, brinque, passeie com eles, o quanto
puder, a fim de ensinar as palavras de amor, que ficarão inculcadas em suas
mentes e servirão como resposta à violência que nos cerca. A série termina com
um desabafo do pai dizendo: “Eu devia ter feito melhor”. Após esta leitura,
pare e pense: o que você pode melhorar hoje no relacionamento com seus
filhos ou alunos?
[1] https://g1.globo.com/educacao/noticia/2025/04/15/violencia-escolar-mais-do-que-triplica-em-10-anos.ghtml
[2]
Ainda não encontrei em minha pesquisa qual era a frase rasgada. Imagino que
seja uma ideia negativa, como: “Eu sou um erro”, “Preciso ser perfeito”, etc.
Conjecturo que a própria Jade possa ter rasgado a frase pela revolta da perda
da amiga.
[3] https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2025/fevereiro/restricao-ao-uso-do-celular-nas-escolas-ja-esta-valendo
[4] O
uso das telas por criança e adolescentes é um tema amplo e profundo que espero
tratar num texto futuro. No momento, me limito a dizer que as telas são
ferramentas, que podem ser bem ou mal usadas. Ainda estamos aprendendo e descobrindo
o equilíbrio necessário desta tecnologia.
[5]
Concordamos com Doug Lemov quando escreve: “Ensinar bem é o melhor jeito de
mostrar que você se importa com seu aluno.” (Aula nota 10 – Ed. Penso, p.26) A
relação de confiança e respeito, entre professor
e aluno, passa pela excelência da didática e postura exemplar do docente.
[6]
...e buscarão em algum lugar...
[7]
Reforçando o que escrevi no início do texto, a série provoca diversas questões
que contribuíram para o crime de Jamie: bullying, más influências nas redes
sociais, educação mais presente dos pais, machismo, etc. Cada um destes fatores
têm sua porcentagem no problema central da série, contudo não é meu objetivo,
nem é possível, abordar tudo em um único texto. Este texto busca trazer um
olhar da pedagogia sobre o segundo episódio e defende que uma das estratégias
para amenizar o problema da violência entre os jovens é o cuidado intencional,
vigilante e acolhedor de educadores, sendo bons exemplos para seus alunos e
dando o suporte emocional que precisam.
[8]
A pergunta pressupõe que, nós educadores, vivemos uma cultura de amor e
acolhimento, pois do contrário a tendência é que os adolescentes reproduzam a
violência que veem em nós.
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