Além de
sobreviver, como ajudar uma criança a prosperar? Essa é a pergunta que o professor
clínico de psiquiatria, Daniel Siegel e a psicoterapeuta Tina Bryson buscam
responder neste guia[2]
de criação de filhos até doze anos, da perspectiva da neurociência.
Como
pedagogo, na última década conheci diversas crianças confusas sobre seus
sentimentos e pensamentos e também muitos pais e professores[3]
perdidos sobre como lidar com comportamentos inadequados das crianças. Na sala
de aula, o professor possui uma demanda acadêmica urgente de ensinar o conteúdo
de um currículo inchado, mas precisa gastar tempo mediando conflitos não só entre
crianças, mas também acolher conflitos internos do indivíduo. Gostaria de ter
lido antes esta obra, pois as estratégias apresentadas por Siegel e Bryson são
dicas de ouro para nós educadores não só ajudarmos as crianças a sobreviverem as
crises do desenvolvimento humano, mas usá-las como oportunidades para prosperar
e amadurecer diante dos desafios.
Como
ocorre ao longo de todo o livro, os autores iniciam explicando o funcionamento
do cérebro de uma forma bem didática e prática.[4]
Diferente de outras obras científicas aplicadas a educação[5],
“O cérebro da criança” possui uma leitura compreensível e atrativa para pais e
educadores. Os autores defendem que para ajudar uma criança a prosperar, precisamos
ajudá-la a “integrar”[6]
seu cérebro. Siegel e Bryson explicam que nosso cérebro é dividido em
partes, o hemisfério direito é dominado pela emoção, instinto e impulsividade,
já o esquerdo é mais lógico, racional e organizado. Dentro do seu
estágio do desenvolvimento, as crianças tendem a utilizar mais o lado emocional,
pois ainda não dominaram a capacidade de se expressar de forma lógica e organizada
com as palavras que transcrevem seus sentimentos. Segundo os autores, utilizar
apenas um dos hemisférios pode levar ao caos (domínio direito) ou à rigidez (domínio
esquerdo), portanto a estratégia dos pais e educadores é: “...ajudarmos
nossos filhos a conectarem esquerda e direita, podemos lhes dar uma chance
melhor de evitar as margens do caos e da rigidez.” Como fazem didaticamente
ao longo de todo o livro, os autores usam a analogia de um rio para falar sobre
a saúde mental. Nossos pensamentos são como um rio, navegamos ou nadamos nele.
Os problemas de saúde mental ocorrem quando nos aproximamos muito de um dos
lados e então nos ferimos nas pedras que ficam nas margens do rio. É como se
tentássemos nadar apenas com o braço direito, ou remássemos apenas com o remo
esquerdo, bateríamos na margem ou ficaríamos rodando sem sair do lugar.
A partir do
entendimento de como o cérebro funciona e da necessidade de integrá-lo, ou
seja, usar os dois hemisférios, logo vem a pergunta: “Ok, como eu faço isso?”
Siegel e Bryson,
respondem com doze estratégias práticas sobre como ajudar as crianças a usarem
o cérebro por inteiro e evitar os extremos do caos e rigidez. Abaixo, comento
sobre a primeira das estratégias que em minha experiência pedagógica já vi
funcionar diversas vezes e convido o leitor a aplicar em sua pedagogia.
·
Conectar para redirecionar. Talvez
você, assim como eu, já tentou ensinar uma criança quando ela está nervosa. A
criança pegou o brinquedo da mão do colega sem pedir, a menina não ganhou o
presente que queria, etc. Por experiência própria já percebi que naquele momento
em que você tem uma criança furiosa na sua frente, não adianta muito tentar dar
conselhos e sermões. Os autores explicam que isso acontece porque naquele
momento o cérebro emocional está dominando todo o pensamento dela, portanto
apelar para a lógica é ineficaz, porque o lado esquerdo racional está
bloqueado. O que fazer, então? Conectar com o direito para
redirecionar com o esquerdo. Na hora da crise, uma estratégia eficaz é se
conectar com os sentimentos das crianças, dar o tempo necessário para todos se acalmarem
e então depois que você a acolheu e se conectou com um abraço e palavras de
empatia, aí sim podemos redirecioná-la para integrar seu cérebro, convidando a
razão para a conversa. Nossa tendência de querer resolver tudo rápido, pode
levar a agressão (gritar) ou a omissão (ignorar), em vez disso, o convite é: primeiro
abrace e ouça, depois questione e explique. Através de perguntas, podemos levar
a criança a perceber que sua reação foi inadequada e então refletir sobre o próprio
erro, como repará-lo e como lidar com ele melhor no futuro.[7]
As demais estratégias do livro como “nomear para disciplinar” e “envolver
em vez de enfurecer”, aprofundam e complementam a estratégia inicial a fim
de integrar o cérebro da criança a fim de que ela, entenda o que está sentindo,
participe da solução e equilibre o racional e o emocional e prospere como um
indivíduo saudável.
Para aqueles que procuram um guia de criação de filhos prático,
equilibrado, não-ideológico e embasado cientificamente, “O Cérebro da Criança”
é uma obra prima na área. Um livro importante para um momento conturbado da
nossa sociedade, desafiador para pais e educadores e confuso para nossas
crianças. Concluo esta reflexão pedagógica com uma das frases finais da obra
que acredito que te darão uma vontade enorme de ler todo o livro:
“Toda essa conversa sobre o poder de
moldar a mente de seus filhos e influenciar o futuro pode parecer intimidadora
no começo,... Se você realmente entendeu o conceito de O cérebro da criança,
sabe que é possível se libertar dos medos de não estar fazendo um trabalho bom
o suficiente com seus filhos. Não é sua responsabilidade evitar todos os erros
nem retirar todos os obstáculos da frente deles. Ao contrário, sua função é estar
sempre presente e conectar-se com eles durante os altos e baixos da jornada da
vida... mesmo os momentos mais difíceis que enfrentamos com nossos filhos e
até os erros que cometemos como pais são oportunidades para ajudá-los a
crescer, aprender e se desenvolver como seres felizes, saudáveis e
completamente eles mesmos. Em vez de ignorar grandes emoções ou desviar a
tenção de seus filhos das dificuldades, você pode alimentar o cérebro deles
auxiliando-os a enfrentar esses desafios...”[8]
[1] SIEGEL,
Daniel J. BRYSON, Tyna Payne. O cérebro da criança: 12 estratégias
revolucionárias para nutrir a mente em desenvolvimento do seu filho e ajudar a
família a prosperar. São Paulo: nVersos, 2015.
[2]
Uma das coisas que gostei deste livro é que embora seja um guia, ele não se
coloca como a verdade universal, nem como infalível. Os autores comentam que existem
exceções e em alguns momentos o fracasso é real. O ser humano é complexo demais
para tudo funcionar para todos. O tom do livro para os pais é sempre de empatia
e incentivo, sem pressão e culpa, nem permissividade.
[3]
Inclusive eu...
[4] Os
autores usam analogias, histórias reais e até charges para comunicarem o
conteúdo denso de neurociência.
[5] Já tentou ler “A Psicologia da Criança” de Jean Piaget e Barbel Inhelder? Boa sorte para entender a obra de linguagem confusa, pedante e desorganizada. O que não significa que o livro não seja bom.
[6] Por
isso o título original: “The Whole-brain child” ou “Cérebro da criança por
inteiro”.
[7]
Outra coisa que gostei deste livro é o equilíbrio dos autores ao lidar com os
conflitos da infância. Enquanto alguns defendem uma “educação positiva” que
pode levar à permissividade e outros uma “educação rígida” que pode gerar traumas,
este livro defende o equilíbrio: há momento de proibir e dizer não, mas isso
dentro de uma cultura de acolhimento e autoridade saudáveis.
[8]
SIEGEL & BRYSON, p.210.
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