No Dia Nacional do Pedagogo, gostaria de te convidar para uma reflexão sobre esta vocação especial. Perceba que chamei de “vocação” e não profissão. Embora o pedagogo seja uma profissão (ofício), não se limita a exercer determinada atividade, mas conforme explica o dicionário, vocação é uma disposição natural e espontânea que orienta uma pessoa no sentido de uma atividade, uma função ou profissão. O pedagogo tem um chamado interior que o constrange a exercer sua vocação. Me formei em pedagogia em 2017, contudo ao analisar o passado, a vocação pedagógica sempre esteve dentro de mim, participando e ajudando em eventos educativos para crianças. Esta disposição natural me conduziu a faculdade de pedagogia, a fim de ser equipado para exercer minha vocação com excelência. Nos anos de estudo da licenciatura me frustrei ao perceber a fragilidade da formação deste profissional tão importante para a sociedade. Aulas excessivamente teóricas e ideológicas sobre filosofia, sociologia e história. O curso buscava formar militantes ideológicos, em vez de ensinar como alfabetizar uma criança ou calcular as operações básicas. Enquanto nas aulas de Medicina, os estudantes aprendem com médicos, no curso de Direito os alunos estudam sobre advogados e juízes, pedagogos passam três ou quatro anos lendo sobre o que médicos, advogados e psicólogos falam sobre educação, e dificilmente o que um pedagogo de verdade escreveu. Sou grato às pedagogas que encontrei na escola em que estagiava, pois no mundo real, no “chão da fábrica” da escola, foram elas que me ensinaram o que é ser um pedagogo, um guardião que cuida, ensina e conduz a criança ao saber[1].
Para finalizar este breve texto,
quero chamar a atenção para aquele que considero ser o maior pedagogo da era
moderna, Comenius[2]. É
uma pena que Comenius seja apenas citação de rodapé na maioria das faculdades brasileiras
de pedagogia, embora seja reconhecido pelo mundo acadêmico como o pai da
didática moderna, seja homenageado pela UNESCO como um de seus idealizadores,
possua obras pioneiras e marcantes na área da educação e tenha participado da
reforma de políticas públicas de ensino em países como a Suécia, Holanda e Inglaterra[3].
Comenius foi um pedagogo por excelência, dedicou sua vida à busca de “ensinar
tudo, a todos, totalmente.” Ao ensinar “tudo”, referia-se àquilo que é bom e
útil para uma vida virtuosa. O “todos” simboliza sua luta para não excluir
ninguém por gênero ou classe social. “Totalmente” significa ensinar de forma
profunda e não superficialmente, pois segundo ele: “conhecer algo, é conhecer suas
causas”. Numa era machista, Comenius defendeu a inclusão das meninas nas
escolas. Num mundo rígido, Comenius fomentava o uso de jogos e brincadeiras nas
escolas. Numa época de autoritarismo, Comenius coibia o uso da violência física
e verbal nas disciplinas escolares. Hoje em dia, os mesmos que se dizem
defender estas pautas, ignoram a pedagogia comeniana, provavelmente porque Comenius
além de ter sido pedagogo, também foi um pastor protestante.
Por fim, para celebrar o Dia do
Pedagogo, destaco três conselhos práticos que o mestre da Pedagogia Moderna deixou
a todos nós, pedagogos[4]:
1. Seja
tal como deve tornar os outros. Nós pedagogos, temos a vocação de
conduzir as crianças ao conhecimento. Não apenas teórico, mas também prático.
Portanto, o pedagogo deve ser um modelo de ser humano. O pedagogo é um exemplo
para a criança, por isso deve buscar viver todas as virtudes que deseja ver em
suas crianças. Transmitir conhecimento é algo que as inteligências artificiais
já sabem fazer, mas transmitir inspiração de vida é algo que só um ser humano
amoroso e sábio consegue realizar.
2. Conheça
os métodos de tornar os outros como devem ser. Conforme já comentado,
infelizmente temos um déficit na formação acadêmica dos pedagogos. Enquanto
este problema estrutural não se resolve, cabe a cada vocacionado à pedagogia “furar
a bolha” e construir sua própria formação através de livros e cursos de
aperfeiçoamento. Precisamos conhecer e usar as pedagogias comprovadas
cientificamente sobre o melhor método de alfabetização e ensino matemático, e
parar de romantizar pedagogias que ao longo das décadas só deixaram nossa
educação nos últimos lugares das avaliações internacionais.
3. Trabalhar
com zelo. Realmente existem muitos desafios e desânimos nesta vocação
como: salários baixos, estrutura física precária, excesso de alunos e escassez
de auxiliares, pressão da direção e pais, etc. Contudo, apesar de tudo isso, diariamente
temos uma criança na nossa frente, que não tem culpa de nada e precisa de nós. Façamos
o melhor que pudermos, com o tempo e recurso que temos, para que aquela criança
seja conduzida ao saber. Isso não quer dizer que não lutaremos pela melhoria da
formação e condições de trabalho, mas significa que não usaremos estes motivos
como desculpas para fazer um trabalho ruim para nossas crianças.
Querido pedagogo, permaneça firme em sua vocação. Um chamado tão especial que Comenius considerava ter sido dado por Deus. Que as palavras de ânimo de Comenius te lembrem de viver sua vocação intensamente:
“É lícito buscar coisas grandiosas, sempre o foi e será,
e não será vão o trabalho iniciado em nome do Senhor.”[5]
[1]
Pedagogo, do grego “paidagogos”. A junção das palavras “criança” e “conduzir”.
Na Grécia antiga, era um servo que servia como tutor ou guardião de uma criança.
[2] Jan
Amos Comenius (1592-1670 d.C.) – Professor e teólogo tcheco.
[3] O autor
que vos escreve deseja em textos futuro analisar mais profundamente a
contribuição comeniana para a educação universal.
[4]
Comenius, J.A. Pampaedia – Educação Universal. Editora Comenius, p.25.
[5]
Idem. Didática Magna – Ed. Martins Fontes, p.19.

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